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Voltar 18/11/2015

A volta do surf feminino. Jacqueline Silva é campeã profissional.

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Desde 2011 não eram organizados campeonatos brasileiros de surf feminino. Graças aos surfistas Wigolly Dantas e Suelen Naraísa, o esporte ganha um novo circuíto.

 

Certamente, você já ouviu falar de Gabriel Medina, mesmo que o surf seja uma realidade distante da sua vida. Mas, já ouviu falar de Suelen Naraísa ou Tainá Hinckel? Medina é campeão mundial; Suelen, surfista de Itamambuca, bicampeã paulista amadora, bicampeã brasileira profissional e terceira colocada no ISA Games 2013; Tainá, surfista catarinense toda sorridente, de apenas 12 anos.

 

Atualmente, Medina é o maior ídolo do esporte no Brasil. Ainda criança, começou a competir em eventos pequenos e nacionais. E foi durante esses campeonatos que ele descobriu o que queria ser quando crescesse: surfista profissional.

 

É nesse ponto que as histórias se cruzam. Suelen é uma grande surfista. Tainá, uma revelação. O problema é que os campeonatos femininos deixaram de existir no Brasil há alguns anos e isso tem prejudicado demais nosso surf feminino. Aí, diferente de Medina, como é que Suelen pode buscar por reconhecimento e apoio, e Tainá sonhar em se tonar uma campeã mundial representando seu país, como fez Medina?

 

De maneira geral, o esporte passou por um período difícil até a conquista do título mundial. Foram dois anos sem nenhuma competição. Nem o SuperSurf, que já teve seus dias de reconhecimento nacional, aconteceu. Só em 2015, depois da popularização de Medida, foi organizada uma nova edição. Para o surf feminino foi muito pior, desde 2011 nenhum campeonato brasileiro era organizado.

 

Resultado do esforço pessoal do atleta Wigolly Dantas, que está no Havaí na corrida pelo título mundial e é irmão de Suelen, final de semana passado (14 e 15 de novembro) aconteceu em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, uma etapa de um novo campeonato brasileiro de surf feminino.

 

Cerca de 100 surfistas se reuniram para competir na praia de Itamambuca. Jacqueline Silva, conquistou o título na categoria profissional. A catarinense, que durante anos esteve sem patrocínio e bancou a própria carreira, estava irradiante. “Nunca desisti desse sonho, não sei e não quero fazer outra coisa da vida, muitas pessoas me disseram para desistir quando ficamos sem circuito”, conta. O currículo da catarinense é mesmo invejável: conquistou por duas vezes oWQS (World Qualifying Series), em 2001 e 2007, e foi vice-campeã da elite do surfe mundial em 2002. Na final em Ubatuba, Silva superou a paraibana Diana Cristina, a catarinense Juliana Quint e a cearense Larissa dos Santos, outro destaque do evento, que conquistou o caneco da categoria Sub 18. Na Sub 12, Tainá Hinckel conquistou o primeiro lugar.

 

Essa é a primeira vez na história do país que o campeonato é organizado por um atleta, realizado por uma família que nunca tinha feito isso antes. Eles conseguiram parceiros que acreditaram e apoiaram a iniciativa. “Eu falo para as meninas que a gente precisa correr atrás, senão nada acontece. Temos muitas pessoas do nosso lado, como a AUS (Associação Ubatuba de Surf) e algumas marcas parceiras. Mostramos que é possível, as garotas estão aqui”, desabafa Suelen.

 

Com o grito entalado na garganta, surfistas como Gabriela Leite puderam voltar a sonhar. Gabriela é mais um exemplo entre tantas garotas que tiveram seu sonho de competir e se profissionalizar roubado. Seu último título foi em 2011 quando conquistou o campeonato sul americano profissional. “Depois disso não houve mais nada, não tinha mais circuito. Me dediquei desde os 10 anos, era meu sonho, e, de repente, me vi sem poder competir, sem patrocínio. Foi muito assustador”, desabafa.

 

Nem sempre foi assim

O surf feminino já viveu momentos gloriosos no Brasil. Há pouco mais de cinco anos ainda era possível sonhar com uma carreira profissional. Nomes como Andréa Lopes, tetra-campeão brasileira, Brigitte Mayer, campeã brasileira, e Silvana Lima, duas vezes vice-campeã mundial (WSL), já estiveram em destaque.

 

Durante quase 10 anos, no começo dos anos 2000, a Petrobrás investiu no esporte. Antes mesmo do incentivo da estatal, as marcas surfwear cresciam no Brasil, lucravam milhões e apoiavam competições femininas e masculinas. O cenário começou a mudar quando essa indústria teve uma queda brusca em suas vendas (a crise econômica mundial, que eclodiu nos Estados Unidos no final de 2008, fez com que as empresas tivessem suas margens de lucros reduzidas) e deixou de incentivar atletas. Em seguida, a Petrobrás saiu de cena. “As empresas ligadas ao surf hoje não investem mais no esporte como antes. Grande parte das marcas de surfwear até deixou de fabricar a linha feminina”, relata Pedro Falcão, tour-manager e diretor executivo da Abrasp (Associação Brasileira de Surfe).

 

Quem viveu os tempos áureos não se esquece. “Tivemos anos gloriosos, com boas premiações. Foi uma época na qual as mulheres também puderem viver do esporte e eu sou exemplo disso. Fui uma felizarda de ter vivido aquele momento”, lembra a ex-surfista profissional Brigitte Mayer. Ela conta que o “golpe” foi repentino e traumático. De quase dez etapas de competição por ano, o número passou a zero a partir de 2011. “Vi uma geração inteira ficar desempregada. Porque, se você não corre campeonato, não expõe as marcas dos seus patrocinadores”, conta. De lá pra cá, várias atletas ficaram sem patrocínio. Brigitte se aposentou em 2010, por decisão própria, mas sabe que muitas surfistas se viram obrigadas a isso.

 

Em 2013, o SuperSurf, circuito de surf brasileiro, deixou de acontecer. “Ficamos dois anos sem campeonatos no país até o título mundial do Medina, quando as marcas voltaram a olhar para o esporte e incentivar o surf novamente”, relembra Pedro Falcão. O campeonato está diretamente ligado com a ascensão de atletas como Filipe Toledo, Wiggolly Dantas, Miguel Pupo, Ítalo Ferreira, Alejo Muniz e, obviamente, Gabriel Medina, além de Adriano de Souza e Jadson André, que já disputavam o mundial WSL (World Surf Legue).

 

Em 2015, o SuperSurf voltou graças a um movimento que tomou as redes sociais. Os atletas fariam o campeonato acontecer, com ou sem patrocínio. Quem presenciou as etapas deste ano notou a simplicidade em relação às edições anteriores. E mais, não incluíram o surf feminino na competição, o que soou como uma falta de respeito com as atletas que, assim como os homens, queriam voltar a competir.

 

Se de um lado vemos o esporte se levantar no Brasil, homens representando o país para o resto do mundo, um título mundial conquistado depois de ser vislumbrado desde a década de 80 e surf no horário nobre da maior emissora do país, do outro estão centenas de surfistas profissionais sem nenhum circuito para participar, desempregadas e sofrendo com a falta de patrocínio.

 

Para o diretor da Abrasp, a exclusão das atletas no SuperSurf foi uma questão de falta de tempo, pois eram 160 surfistas para competir em cinco dias. Sua opinião é polêmica: “O surf feminino precisa de um personagem, uma linda surfista, que além de surfar seja modelo, que ela tenha o poder de levar o surf para a massa da população e não só atingir o nicho que já existe e consume o esporte”.

 

Para Simone Medina, mãe de Gabriel, as atitudes devem ser repensadas rapidamente. “Eu acredito que, assim como os homens têm vontades e desejos de realizar sonhos, fazendo o que gostam e estando felizes com isso, as mulheres têm todo e qualquer direito de sonhar da mesma maneira, de se realizarem e de se profissionalizarem. Não entendo porque não temos um circuito feminino de surf no Brasil”, diz. Enquanto nada é feito à favor do esporte, talentos são desperdiçados e as possibilidades de termos campeãs mundiais são exauridas.

 

A realização do campeonato feminino em Itamambuca no último final de semana trouxe um sinal de esperança. Ao final, fica a sensação de que, realmente, falta vontade e atitude das associações de surf no país. Mas também fica a certeza de que é possível o Brasil voltar a ter um circuito nacional feminino. Fica o exemplo de uma atitude pessoal, vinda de uma família empenhada e que sabe o significado da palavra “luta”. O surf feminino não é categoria, é um esporte.

Por: Revista TPM - Texto: Janaína Pedroso.
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